terça-feira, 21 de agosto de 2012

Mirella


Mirella era uma linda mulher. Seus cabelos eram dourados feito o trigo no campo e adornavam sua pele apessegada. Olhos brilhantes, sorriso espontâneo e as curvas,... Ah, as curvas de Mirella. Tão generosas que mais pareciam uma criação de Michelangelo num momento de sublime inspiração.
Feliz, séria, inteligente, decidida e apaixonada. Assim eram seus dias e a sua vida. Nos últimos dez anos encontrara e convivera com o tão intenso amor de Lucas. Planejavam tornarem-se pais para o ano vindouro. Estava tudo muito bem desenhado em suas vidas e não fosse aquela carta anônima que chegara naquela manhã chuvosa,...
Aquela carta cortara-lhe fundo o coração e este sangrava. Junto com a carta havia fotos comprometedoras de Lucas. Agora ela sabia que ele envolvera-se com uma menina mais jovem. A carta dizia apenas: “Estou esperando um filho. E seu marido é o pai. Ele prometeu-me contar-lhe, mas como não o fez, envio-te esta carta e as fotos que comprovam nosso amor”.
Cada foto vista causava-lhe náuseas e o mundo agora, girava ao seu redor numa velocidade alucinante. Ela chegou a pensar em saltar fora dele, mas não era seu estilo e ela jamais faria tal coisa.
Num ímpeto mais forte ganhou a rua, precisava falar com alguém, desabafar, gritar, chorar. Qualquer coisa, menos ficar ali. Geralmente Mirella não bebia, mas naquela manhã deu-se ao luxo de tomar uma dose dupla de whisky antes de sair. Ela realmente precisava acalmar-se e a bebida falsamente, naquela hora, parecia uma amiga antiga.
Onde ir? Com quem falar? Em quem confiar? Tantas perguntas e tão poucas opções. Afinal, nos últimos dez anos afastara-se das amigas, dos parentes. Fez de tudo que estava ao seu alcance para eternizar aquele amor que acabara de esfarelar feito areia entre seus dedos. Foi então que lembrou-se de Rita.
Rita tinha sido até o casamento a melhor amiga, a confidente das coisas boas e más. Nas noites de baladas eram inseparáveis e, talvez Rita a ouvisse a emprestasse o ombro. Quanto a Lucas? Ela ligou para ele e disse apenas: --- Estou saindo. Não me procure! Depois arriscou a sorte e ligou para o antigo número da amiga. Uma voz masculina atendeu, ela gaguejou mas mesmo assim perguntou sobre Rita. O homem disse-lhe então: --- Só um segundo. Já passo para ela. Ao fundo Mirella escutou: --- Amor, tem alguém ligando prá você. Depois de falar com amiga rapidamente e confirmar que seria recebida após tantos anos, dirigiu-se para a casa de Rita. Antes jogou o celular numa lata de lixo e seguiu caminhando a passo.
Mal sabia ela os rumos deliciosamente tentadores que Rita e eu “Dono” tinham dado às suas vidas nestes últimos anos, mas logo ela iria fazer parte de algo que sequer suspeitava. Descobriria prazeres que nunca imaginara, cumplicidades impensadas, momentos ímpares e suspiros que emanavam da alma.
Mirella acabara de renascer para a vida.

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