De descendência alemã fui
ensinado desde pequeno por meus avós paternos a ter orgulho de minhas raízes e,
criança que era, jamais contestei isso. Ocorre que nas décadas de 60 e 70, a
Segunda Guerra ainda era um fato muito recente na memória de todos. Alie-se
isso ao período da repressão política no Brasil e você terá um panorama do
mundo político e cultural onde cresci.
Uma de minhas primeiras ficantes
(eu tinha 16 anos) era uma garota ruiva, linda e quase dois anos mais velha do
que eu. Isto era sinônimo de liberdades que até então eu não tivera. Era
delicioso estar com ela e se não cito o nome dela é por que realmente não vem
ao caso. Logo no primeiro mês em que ficávamos com uma certa constância ela me
convida para ir ao cinema em seu clube para assistir um filme com ela.
Nunca havíamos falado sobre
descendências ou coisas do gênero, mas eu sabia que ela era judia e isso não
fazia a menor diferença para mim. Éramos jovens e tínhamos fome. Isso sim me
importava.
Na noite marcada lá estava eu.
Era o Centro Israelita de Porto Alegre. O filme? Adivinhem: Um documentário sobre
Cenas verídicas concernentes ao Holocausto.
A medida que o filme ia passando
e eu lendo atentamente todas as legendas, onde os alemães eram correta e
peremptoriamente condenados por cada crime eu diminuía no assento. Tinha a
impressão que todas as outras trezentas pessoas presentes sabiam que eu era o
único descendente de alemão ali, naquele local, junto com eles e erroneamente, em meio à eles.
Eu passei a me interessar mais
por tudo o que tinha a ver com o Holocausto e hoje, quase setenta anos depois desta chacina, ainda
sinto vergonha do que meus ancestrais causaram à humanidade como um todo.
Mas você que me leu até aqui deve
estar se perguntando o porque de eu estar contando esta história da minha vida mais de trinta
anos depois. Estou certo? Bem, o fato de ter me sentido discriminado sem que
ninguém soubesse absolutamente nada a meu respeito naquela sala de cinema, me
fez ver ainda muito cedo e intuitivamente que todos somos “pessoas”. Não existe
branco, preto, gay, judeu, esquerdista, comunista, muçulmano, pobre, rico, certo
ou errado.
O que nós somos mesmo é pessoas,
e é isso o que conta. Todo o resto são apenas rótulos que as pessoas impõe umas
as outras ou auto impõe-se por conveniências sociais e/ou distorções culturais. Não devemos deixar que construam muros entre nós. Nossa obrigação,
durante a vida toda, é derrubá-los sempre que surgirem.
Era isso. Boa matéria para se
pensar num domingo de outono né!